'Não
agüento mais ter pesadelos com trânsito'
Alguns socam o volante impiedosamente, outros colocam
música clássica para relaxar. Muita
gente até decide vender o carro ou fazer terapia
para esquecer das buzinas, dos caminhões, dos
motoristas mal-educados e de todo o caos do trânsito
paulistano. 'Tive de procurar ajuda médica,
pois não agüentava mais ter pesadelos
com congestionamentos', diz a professora de inglês
Clara Ferraz Lima, de 41 anos. 'Ficava com tremedeira
na mão só de pensar na Marginal do Pinheiros
ou na Avenida dos Bandeirantes.'
Em São Paulo, não é nada difícil
encontrar quem já se encheu do trânsito.
O administrador de empresas Leonardo Pallotta, de
30 anos, perdia uma hora e meia, no mínimo,
para ir de carro da sua casa em Pinheiros até
o escritório na Vila Olímpia, ambos
na zona sul. Para voltar, era ainda pior: lá
se iam mais duas horas do seu dia. 'Eu me irritava
profundamente', diz ele, que decidiu abolir o carro
da rotina. Juntamente com a mulher, mudou-se para
a Vila Olímpia e atualmente faz tudo a pé
- vai ao trabalho em cinco minutos, depois passa na
academia ao lado do prédio e, se der tempo,
caminha até o Parque do Ibirapuera.
'Passo a semana sem ligar o carro', diz. 'Minha vida
está muito melhor, tenho muito mais tempo e
disposição. Sem falar que economizo
na gasolina e no almoço, pois dá para
comer em casa.' O produtor de eventos Guilherme Bezerra,
de 41 anos, também aposentou o Celta, vendido
há seis meses. 'Estava tão neurótico
com congestionamentos que pensei até em mudar
de cidade. Agora só uso táxi, que pode
trafegar pelo corredor de ônibus e vai muito
mais rápido ou ando a pé mesmo.'
De acordo com uma pesquisa do Instituto de Segurança
no Trânsito, um paulistano que passa duas horas
por dia dentro do carro perde, no final do ano, um
mês atrás do volante. Sem falar nos efeitos
colaterais. 'Há desde problemas na coluna até
estafa mental', diz Augusto Santamaria, engenheiro
especialista em trânsito e segurança
de tráfego.